CAPÍTULO 1
Café e Calafrios
O lugar era o Rio de Janeiro, em pleno Carnaval.
Rafael já tinha bebido três cervejas, e tinha uma esperança.
A esperança era simples: a de que a noite ia recompensá-lo por ter saído de casa hoje apesar da ressaca.
Caio não precisava acreditar em nada. Estava do outro lado da mesa, cotovelo na madeira, rolando o feed com o polegar, alheio ao caldeirão de gente que fervia na rua.
A mesa entre os dois era um retrato do feriado: uma garrafa de cerveja dentro do isopor, dois copos de boteco suando na madeira, um prato de picanha na chapa com fritas por cima, já pela metade.
— Caio. Ô, Caio. — Rafael chutou a canela dele por baixo da mesa. — Larga essa merda de celular e olha ali.
— Hã? — Caio nem levantou os olhos.
— Ali, cara. As gatinhas. — Apontou com a mão que segurava o copo de cerveja. — Olha essas fantasias. É fantasia de gringo, parece coisa de cinema. São gringas, só pode.
Quatro mulheres de aparência distinta tinham saído de um beco e passado pela fumaça que tomava conta da rua. Asa, chifre, cauda. Ninguém estranhou — aparência distinta, àquela altura do campeonato, era só enfeite. Um lampejo roxo que apareceu e se abriu no céu mais cedo, tinha virado “fogos”. O Carnaval era a explicação oficial de tudo que acontecia na cidade naquela época.
As quatro atravessaram a rua observando o lugar. Uma tinha chifres que pegavam a luz do poste e uma armadura acesa como brasa viva. Outra, mais alta, arrastava atrás de si braços cinzentos sem ancoragem nenhuma. Estavam boiando no ar — arame, pensou Rafael, fio fino e firme, trabalho bem feito. A terceira tinha asas, cauda e pele num tom pálido de gelo. E a menor, pele rosada, tinha cabelo magenta e asas de fada translúcidas com nervuras intrigantes.
Um grupo de meninas aplaudiu, achando que iam para algum tipo de ensaio. — Caraca! Lançaram a braba!
Por um instante as quatro receberam os aplausos da vívida cidade.
Num boteco às costas delas, um letreiro de neon vermelho piscava BEM-VINDO AO INFERNO — decoração de Carnaval como qualquer outra.
— Olha, olha! — A cor-de-rosa girava a cabeça pra tudo, encantada. — Que lugar animado. Quantos brinquedos.
Rafael achou graça da gringa animada. Não conseguia ouvir o que falavam; na distância, só via as bocas se mexerem.
— Não há aqui uma só presença digna de um guerreiro. — A dos chifres não desacelerou, os olhos correndo pela rua e descartando tudo o que encontravam. — Só vejo lixo por todo lado.
A mais alta deixou os braços cinzentos se abrirem devagar às suas costas, provando o ar.
— Ninguém se incomoda com a gente — disse, e havia prazer na lentidão da voz. — Nenhum deles está com medo. Só andam, feito gado.
A dragoa ergueu o queixo diante da fileira de prédios acesos, sem pressa nenhuma.
— Hm. Lugar esdrúxulo. Mas devo admitir: eu esperava tocas, não construções desta envergadura. — A voz saiu menos entediada que o normal. — Quem diria que a plebe sabe empilhar pedra com préstimo.
— Você reclama de tudo. — A cor-de-rosa deu de ombros, ainda encantada com as luzes. — Eu adorei.
Alguma coisa na multidão chamou a atenção dela. Um rapaz de regata verde, do outro lado da rua, olhava para o grupo com fascínio, como se estivesse hipnotizado.
Rafael conferiu para ter certeza — a vida já o tinha enganado antes, e ele não acreditou de primeira. Mas os olhos dela, verdes feito joia, estavam olhando de volta na direção dele. E ela sorriu.
Pronto. O sentimento do dia inteiro estava explicado: A sorte chegou. O universo pagava atrasado, mas pagava.
— Ah, lá! Elas estão passando. Bora, bora!
Vamos, anda. — Rafael já se levantava, ajeitando a gola. — Anda logo, Caio.
— Calma aí, seu doente. — Caio enfim olhou, sem soltar o celular. — Nunca viu mulher, não?
— Quem não arrisca não petisca. — Rafael chutou o pé da cadeira dele. — Levanta.
— Tá, tá. Já vou. — Caio se ergueu, na função histórica de dupla.
Rafael chegou perto o bastante para ter certeza de que podia ser ouvido e acionou o repertório internacional completo.
— Oi! Hi! Hello! Konbanwa! Buenas noches! — Alternava entre idiomas que certamente não sabia falar.
A cor-de-rosa se virou, inclinou a cabeça e apontou para si.
— Tá falando comigo?
A voz era clara, e o português saía perfeito — tão perfeito que aquilo não parecia certo de forma alguma.
— Ó, você fala minha língua? E nem tem sotaque…
Cara, essas fantasias ficaram muito loucas!
— Fantasias? Ah...
— Suas amigas também são brasileiras?
Ela se aproximou. Vinha dela um cheiro de flor — flor de campo, nenhuma flor que ele conhecesse, não que Rafael conhecesse muitas, mas ele tinha certeza de que essa era de algum lugar diferente.
— Pra que quer saber? — disse ela. — Quer fazer alguma coisa com a gente?
— Não, jamais... — A frase saiu antes do plano. — ...só ia chamar vocês pra beber. — Que que eu tô falando, pensou, tarde demais.
— Hmm. — Ela o mediu, se divertindo. — E o que você queria falar com a gente, afinal?
Rafael interpretou como uma chance. Foi o último erro de cálculo que ele cometeria.
— Ah, é! Claro… Meu nome é Rafael, prazer. — Estendeu a mão, lembrando tarde das apresentações. — E você, como se chama?
— Quer saber meu nome? É Eryn.
— Oi, Eryn. Já que a gente teve a sorte de se conhecer, quer sentar em algum lugar para conversar? Ou você quer ajuda com alguma coisa? Tem um monte de bar legal aqui e eu conheço todos.
— Você é bem direto, né. — Não era elogio nem reclamação.
Já que está oferecendo, tem uma coisa que eu quero, sim.
Eryn estendeu a mão na direção de Rafael, com o indicador apontado. As escamas vermelhas cobriam o braço até a ponta dos dedos, as unhas eram garras afiadas como ponta de espada. Ele viu as escamas nos dedos e tomou tudo por parte da fantasia.
— Caramba, sério?! Essa cantada deu certo mesmo?
Devagar, o dedo indicador se aproximou do peito dele. A ponta da unha parou no ponto exato entre a clavícula e o coração.
— ...Hã?
Meia hora antes
Giovanna Monteiro subia sozinha no elevador quando o último vestígio do Carnaval desapareceu atrás das portas de aço.
Restaram o silêncio de repartição pública e uma lâmpada que piscava a cada três segundos, como se também estivesse cansada. Ela preferia assim.
No aço escovado da porta, o reflexo a encarou de volta: borrado, sem paciência, e vestida para qualquer coisa menos uma reunião de emergência. Longos cabelos castanho-claros, olhos verdes, trama de arrastão sobre um top preto, mangas roxas nos antebraços. Unhas pretas, botas. A aparência de quem tinha sido arrancada da própria folga — e era exatamente isso.
A convocação tinha chegado um pouco antes. Álvaro fora econômico: “comparecer ao QG imediatamente”. Sem explicação.
Giovanna tinha percepção afiada demais para não entender o que aquilo significava. Na Divisão, mensagem vazia era problema. Quanto menos palavras Álvaro gastava, mais coisa ele estava guardando para dizer pessoalmente.
— Convocação de uma linha... — murmurou.
Pensar em voz baixa era um hábito antigo.
O elevador parou no décimo nono andar com um solavanco educado.
As portas se abriram para um corredor longo e vazio. Lâmpadas fluorescentes lançavam claridade branca sobre o piso encerado; portas fechadas, extintores e placas de saída se repetiam até o fim. Os passos de Giovanna avançaram secos e regulares enquanto o elevador se fechava às suas costas.
No fim havia uma porta sem identificação.
A Divisão de Incidentes Sobrenaturais funcionava num prédio comercial sem nada de especial — e esse era o ponto. Nenhuma placa anunciava o que se fazia ali. O órgão existia havia gerações daquela forma, discreto como mofo em arquivo velho, cuidando de coisas que o resto do país chamava de folclore.
Giovanna entrou e varreu o ambiente de canto a canto por reflexo.
Estações de trabalho ocupavam o lado direito, diante de uma bancada de monitoramento coberta por mosaico de telas. À esquerda, depois do bebedouro e o cantinho do café, uma mesa antiga desaparecia sob livros, pastas e bitucas de cigarro. Ao fundo, divisórias de vidro cercavam o escritório de Álvaro.
A cadeira dele estava vazia. O restante da equipe, não.
Dante Aragão ocupava a estação mais próxima, largado diante de um monitor apagado como se o tédio fosse uma posição de trabalho. Cabelos castanhos desalinhados e camisa azul-escura de mangas arregaçadas — não parecia um agente sobrenatural.
Os demais agentes aguardavam espalhados pela sala.
Mirian Prado ocupava a mesa à esquerda, a única pessoa da sala que não parecia nem incomodada nem curiosa. A analista sênior usava jeans escuro, camisa social branca, blazer marrom, cabelos ruivos em ondas sobre os ombros. O cigarro descansava entre os dedos com a naturalidade de um instrumento de trabalho — e, a poucos metros, uma placa de proibido fumar dizia um pouco sobre sua personalidade. Na ausência de Álvaro, a autoridade da sala era ela.
Todos os presentes tinham respondido à convocação. Nenhum parecia saber por quê.
O cheiro de café requentado pairava no ar e o ar-condicionado lutava contra o verão. Os monitores continuavam acesos, mas ninguém trabalhava de verdade.
Tudo estava quieto.
Quieto demais para uma convocação de emergência.
— Cadê o Álvaro?
Dante ergueu os olhos com a expressão de quem só estava esperando um gancho para poder reclamar.
— A gente também quer saber. Atendi o chamado, vim direto e tô aqui esperando. A Mirian não passou nada pra gente ainda.
Giovanna olhou para Mirian. Ela apenas tirou o cigarro da boca, expirou devagar e deu de ombros — como quem diz: “Você já sabe como ele é.”
Giovanna registrou tudo e calculou. Depois voltou a olhar para Dante.
— Ok.
Como boa parte dos agentes reunidos ali, Dante era um Latente: humano com potencial acima do normal, capaz de sobreviver ao que mataria uma pessoa comum, mas ainda aquém da transformação em Anjo. Alguns despertavam com o tempo. Outros passavam a vida na soleira sem atravessá-la.
Apesar da pouca diferença de idade, para Giovanna ele seria sempre uma espécie de calouro. Não por desprezo; por tempo de casa — e pela hierarquia real daquele lugar.
Ela foi até a máquina de café, uma veterana de guerra que fazia mais barulho que serviço. Encheu o filtro de pó e apertou o botão.
O café teria de compensar a falta de respostas.
A máquina rugiu. Antes de começar a pingar, a porta abriu.
— Opa! Cheguei!
A voz entrou primeiro. Eterna Venturini veio logo atrás, como se o sol tivesse entrado na sala, vibrante e alegre.
Cabelos longos e loiros sobre a blusa amarela, um pingente em forma de raio, calça preta, tênis marcados de estrelas. Os olhos verde-mel varreram a sala, tão vivos quanto o sorriso. Se a convocação de última hora a tinha incomodado, já não havia sinal.
— Ah, Gio! Dante!
O sorriso se abriu ainda mais. Eterna acenou para os outros enquanto avançava pela sala, mas parou depois de poucos passos. Olhou pela divisória de vidro e encontrou o escritório vazio.
— Ué... cadê o Álvaro?
— A gente não sabe ainda — responderam Giovanna e Dante juntos, no mesmo tom desanimado.
A sincronia involuntária fez o sorriso de Eterna se abrir mais, como se ela percebesse algo muito engraçado naquilo.
Essa é a Eterna Venturini, pensou Giovanna, enquanto pegava seu copinho. Ela é o que acontece quando se junta talento com esforço. É absurdamente forte — além disso, ama treinar e lutar. Se ela continuar nesse ritmo, em um ou dois anos não vai haver Anjo no mundo capaz de encará-la.
Eterna se virou para o lado e estava próxima a mesa de Dante.
— Fala, Dante! Ô, vi seu show! Tá mandando bem com a boyband.
O efeito foi imediato. Dante endireitou a coluna.
— Boyband uma ova. Aqui é rock ’n’ roll na veia!
— Aham, sei. Vou te dar um conselho: larga essa de rock ’n’ roll e fica na boyband que tá dando certo. A galera tá adorando, eu vi.
Uma ruga surgiu entre as sobrancelhas dele.
— Eterna, sua—
E então ele parou. No meio do caminho entre a ofensa e o artigo, outro pensamento lhe ocorreu.
— Ah, é.
Virou-se para Giovanna e tirou do bolso uma folha dobrada, com um sorriso convencido.
Giovanna sentiu o incômodo se aproximar como uma planta sente a sombra avançar.
Dante foi até ela e estendeu a folha.
— Saca só, Gio. Dá uma olhada nisso aqui.
Giovanna suspirou. A educação venceu.
— Tá.
Eterna se aproximou pelo outro lado, atraída pela curiosidade.
— Ah, que bonitinho, é uma carta de amor? Sempre soube que vocês se gostam, apesar das brigas…
— Não enche. É a letra da minha próxima música.
Giovanna bebericou; o calor excessivo ajudava a mascarar o gosto ruim do pó de café barato por um momento. Passou os olhos pela folha e voltou ao começo para ter certeza.
— Hum.
— Viu aí? — Dante se inclinou para a frente, confiante. — Não tem como. Essa é o bicho!
Giovanna pousou o copinho na mesa ao lado. Pegou uma caneta e sentiu todos os olhos da sala travarem em sua mão..
Escreveu. Dobrou a folha.
— Olha, Dante! A Gio tá respondendo sua cartinha de amor!
— Você é enjoada, hein! Já falei que não é nada disso.
Giovanna escreveu de novo, fez outra dobra e devolveu.
— Tá aí. — Pegou seu cafezinho de volta e se afastou, bebericando, sem olhar para trás.
— Não era mais fácil falar logo? — Ele abriu a primeira dobra.
Eterna já espiava por cima de seu ombro, olhos brilhando. No centro do papel, Giovanna tinha desenhado uma nota musical: dó. Ao lado, uma seta curta apontava para baixo.
Dante franziu a testa. O olhar correu da nota para a seta e voltou, tentando decifrar a mensagem antes de abrir a dobra seguinte.
— Dó? O que ela quer dizer? É o tom? — murmurou Dante, seguindo a seta com os olhos.
Ele abriu a segunda dobra.
Ali estava a resposta, escrita com a linda caligrafia de Giovanna:
“Dó de quem ouvir isso.”
Houve um instante de silêncio absoluto.
— Desgraça, Giovanna! Você me paga!
Eterna foi ao chão. Não em sentido figurado — ela deitou no piso da repartição e chorou de rir, batendo a palma na cerâmica, rolando entre uma gargalhada e outra. O som encheu o escritório, rebateu nas divisórias e fez Mirian olhar por cima do monitor.
Dante ergueu o papel acima da cabeça e iniciou uma reclamação da qual Giovanna captou apenas palavras avulsas: respeito, arte, ignorância. Ela tomou mais um gole, sem dar muita importância.
Um clarão amarelo atravessou a sala.
Eterna deixou de estar no chão e surgiu ao lado de Dante, sorrindo. A mão erguida dele estava vazia; o papel, entre os dedos dela.
— Toma, Gio!
Ela lançou a folha como carta de baralho.
Giovanna a apanhou no ar por reflexo, sem esforço. Não foi difícil prever a trajetória.
Dante veio atrás do papel.
Giovanna se afastou no último instante, deslocando-se apenas o necessário para sair do alcance.
Ele tentou pelo lado contrário; ela girou o ombro e deixou a mão dele passar. O copo permaneceu estável entre seus dedos.
Na terceira tentativa, bastou meio passo para trás.
A perseguição começou a percorrer a sala em órbitas curtas e ridículas, Dante tentando recuperar sua obra, Giovanna entregando o mínimo indispensável de movimento, sem querer estar fazendo parte daquela específica continuação da brincadeira.
Mirian soltou um suspiro; Eterna continuou rindo.
A porta se abriu novamente quando Dante tentava encurralar Giovanna entre duas estações de trabalho.
Mabel Fernandes atravessou a soleira com um copo de água na mão e a cara de quem não sabia mais se tinha entrado no QG ou num jardim de infância. Os cabelos castanhos estavam presos nos dois coques de sempre, com tranças e mechas azuis; uma faixa azul e dourada marcava a cintura. O azul a seguia por toda parte, como se a água a anunciasse antes de ela erguer a mão.
— Égua! Que bagunça da moléstia é essa? Dante, por que cê tá correndo atrás da Gio?
— Porque ela é uma amargurada!
Mabel acompanhou outra esquiva mínima de Giovanna.
— Sei.
Dante recebeu a resposta como validação absoluta.
— Viu?!
Satisfeito com a concordância implícita, retomou a perseguição com entusiasmo renovado. Foi nesse momento que seu pé encontrou a base de uma cadeira mal encaixada sob a mesa.
O corpo foi e o equilíbrio ficou para trás.
Dante esbarrou numa divisória e soltou a folha. O papel dobrado subiu com a corrente de ar do tropeço e escolheu, entre todas as direções possíveis, o rosto de Mabel.
Ela mal teve tempo de piscar.
Um fio de água saltou do copo antes de qualquer decisão consciente. O líquido se ergueu numa curva estreita — pisssh —, interceptou o projétil e o arrastou para baixo. Papel e água atingiram o piso juntos. As dobras se abriram, as fibras escureceram, e a obra de Dante terminou estatelada numa pequena poça.
A sala inteira olhou.
Mabel baixou os olhos. Ela podia controlar a água, mas não existia técnica capaz de convencer tinta molhada a voltar à forma anterior.
— ...Eita. Foi mal. Reflexo muscular.
Giovanna levou o café aos lábios para esconder uma reação que não chegava a ser um sorriso.
Dante caiu de joelhos diante da poça.
— Minha... obra-prima...
Os ombros dele desabaram. Pela reverência com que observava a folha encharcada, alguém poderia supor que o piso do QG acabara de receber os restos de uma relíquia cultural. Giovanna, no entanto, não viu motivo para desdenhar. O luto, assim como o gosto musical questionável, era um assunto pessoal.
Eterna, enfim recuperada da crise de riso, atravessou a sala com os braços abertos.
— Mabel! Quanto tempo. Como você tá? E o treino?
— Tô bem. Que bom te ver também. — Mabel virou a página do que tinha acabado de acontecer com facilidade admirável e seguiu com Eterna. — Aprendi uma técnica nova.
As duas foram para um canto feito conspiradoras, e Giovanna, a poucos metros, ouvia o cochicho com a resignação de quem conhecia as peças.
Plac — as palmas de Mabel bateram uma contra a outra, fazendo um som molhado.
Quando ela as afastou, uma esfera de água se formou entre as palmas. Uma esfera perfeita. Tremendo na própria tensão superficial. Brilhava em azul, genuinamente bonita, refletindo as luzes do teto e distorcendo o rosto atento de Eterna do outro lado.
Mabel mantinha o volume suspenso sem derramar uma gota. Giovanna reconheceu a precisão antes mesmo de ouvir o nome. Essa foi sua primeira falha.
— Eu chamo de Esfera de Água Molhada. O que acha?
— Essa é boa. Caramba. — Os olhos de Eterna acenderam com admiração sincera; depois estreitaram, e a admiração virou um calor competitivo.
Eterna recuou meio passo, colocou uma palma sob o cotovelo oposto e a outra sobre o antebraço. Puxou os braços em direções contrárias, raspando as mãos num gesto rápido. Uma faísca nasceu entre seus dedos.
O estalo seco cortou o ar. A faísca cresceu num arco dourado e oscilou entre as mãos como uma corda viva. Os monitores próximos produziram uma breve interferência. Eterna abriu um sorriso de apresentação.
— E esse é o Relâmpago Que Dá Choque. Maneiro, né?
— Nossa, genial! — Mabel levou as mãos ao rosto, empolgada.
Giovanna baixou o copinho.
Lembrou-se de ter lido em algum livro antigo que o Despertar de um Anjo trazia sabedoria. Giovanna quis poder viajar no tempo para apresentar algumas evidências modernas ao autor.
— Essa é a conversa mais idiota que eu já ouvi. Deus me ajude. Vou ter um aneurisma.
Eterna e Mabel olharam para ela, muito sérias. A esfera continuava suspensa; o arco elétrico, crepitando. A pausa fora calculada. Giovanna percebeu e, mesmo assim, não cedeu.
— Antes ouvir certas coisas do que ser surda, eu acho. — completou
O canto da boca de Mabel tremeu; Eterna pressionou os lábios. Por fora, sustentavam a solenidade de mestras revelando técnicas ancestrais, por dentro riam como hienas. Elas sabiam exatamente o que estavam fazendo, claro que sabiam.
Colocavam esforço real naquilo. Em parte por brincadeira, em parte para cutucar a única pessoa da sala que se recusava a dar o braço a torcer.
Ela jamais cederia; preferia morrer.
Do outro lado da sala, Dante continuava ajoelhado diante da folha arruinada, resmungando algo que não dava para ouvir ou entender, água escorrendo de cada canto do papel.
— Minha linda música... Tudo por causa da sua inveja…
Sem pensar, amassou tudo numa bola e arremessou na direção de Giovanna.
Ela deu um passo para o lado — na direção de Eterna e Mabel, enquanto tomava um gole do café — e a bola de papel cruzou o espaço exato que ela tinha acabado de desocupar, seguiu limpa pelo ar da sala e alcançou a porta no instante em que ela se abria.
Uma chaminha estalou. Fuá.
A letra da próxima música de Dante virou cinza no ar, a meio metro do rosto de quem entrava.
Beatriz Galdino acabava de entrar. Pele escura, cabelo black volumoso emoldurando o rosto, uma blusa de mangas cor de creme com bordados vermelho e tênis brancos impecáveis. Tinha acabado de entrar na sala, incinerar um projétil em pleno voo por puro reflexo e destruir sem querer o sonho musical de um colega — e nada disso alterou uma única batida do seu coração.
As cinzas caíram ao chão, devagar.
Ela piscou.
— O que foi isso?
Silêncio.
— Lixo — disseram Giovanna e Eterna, ao mesmo tempo, de pontos opostos da sala, cada uma já voltando ao próprio afazer.
— Minha obra-prima... — A voz dolorida rasgou o ar da sala.
Ele socou o chão com os dois punhos.
— Nãão! Minha letra. Meu caminho até os Deuses do Metal.
— Ah. — Beatriz entendeu sem que ninguém precisasse explicar e fechou a porta. — Foi mal. Mas você tem uma cópia, né?
O olhar de cão abandonado respondeu por ele.
A essa altura, Eterna e Mabel já estavam num canto distante fazendo pose, os joelhos flexionados, as mãos traçando linhas invisíveis no ar com a seriedade de um ritual que deve ser seguido à risca.
— Prepare-se para minha técnica suprema, Imperatriz do Relâmpago! É o seu fim!
— Faz-me rir, Imperatriz da Água. Minha aura está queimando além do limite, você não pode me tocar!
— O quê?! Sua aura está queimando além do limite?! — Escandalizada, Mabel cambaleou um passo para trás, como se a informação a amedrontasse.
— Exatamente! Minha aura está queimando além do limite!
Giovanna baixou o café e se aproximou de Beatriz, como quem aciona o último recurso disponível.
— Bia. Vai botar juízo nessas duas idiotas. A coisa é séria.
Beatriz olhou para as duas, em suas poses de delírio juvenil. Olhou para Giovanna. Olhou de volta para as duas. Assentiu com a cabeça.
— Deixa comigo.
Polegar para cima.
Ela atravessou a sala com passos firmes de quem vai resolver a situação, plantou o pé diante das duas e varreu o braço pelo ar num arco imperial.
— Aura Suprema? Não me façam rir. Gentalha como vocês jamais alcançarão a Verdadeira Aura Suprema. Observem e aprendam, insetos insolentes.
E começou a bater os braços, devagar e solene, feito uma garça levantando voo.
— Uau — suspirou Eterna, aplaudindo com empolgação. — A coreografia tá perfeita.
Giovanna fechou os olhos. Colocou a mão na testa. Ficou assim por um tempo, imóvel, como uma estátua alegórica da saúde mental na repartição pública.
— Até você, Bia.
— Ave Fê—
— Para! Para! Para! — Apontou para as três, o dedo percorrendo a fila de acusadas. — Parem com isso agora! Assim a gente vai ser processado!
Foi nesse exato momento que a porta se abriu.
Álvaro Braga entrou com uma pasta fina debaixo do braço e uma expressão que não combinava com nada do que acontecia na sala. Alto, ombros largos, cabelos negros penteados para trás, barba curta bem aparada. A combinação da camisa laranja com a gravata preta seria chamativa em qualquer outro; nele, caía bem. Parou a dois passos da porta e contemplou o quadro completo — e o quadro não o ajudou a entender nada.
— Que bom ver vocês tão animadas como sempre. Bom saber. Mas tenho más notícias.
O rosto dele se fechou.
— Preciso da atenção de vocês. Agora.
Foi como um interruptor.
Todos os presentes prestaram atenção. O clima da sala mudou de estação em três segundos.
— Sala de reuniões — ordenou Álvaro.
Ele saiu na frente. Os demais o acompanharam sem uma palavra.
Na sala agora vazia, o café de Giovanna começava a esfriar.
Álvaro não se sentou.
Abriu a pasta sobre a mesa, mas não precisou olhar; já sabia de cor o que estava ali.
— Estamos monitorando há alguns dias um portal dormente, surgido aqui no Rio. Hoje, as leituras mudaram: detectamos nele várias assinaturas de energia maligna. Por isso chamei vocês.
Giovanna esperou o resto.
Um portal era trabalho corriqueiro. Assinatura maligna era previsão do tempo. Nada daquilo justificava convocar as quatro em caráter de emergência e enfileirá-las numa sala.
Eterna foi a primeira a perder a paciência.
— E...? Isso não é novidade. Por que chamar a gente? Se os Latentes não derem conta, é só mandar a gente direto pro campo.
— Há menos de uma hora, o portal começou a se abrir — disse Álvaro. — Demônios de classe baixa já atravessaram, mas isso é o menor dos problemas.
Ele deixou a frase respirar.
— Detectamos quatro assinaturas distintas de tudo o que conhecemos. Cruzamos as leituras com registros de portais de outros países e nada bateu. A máquina sequer conseguiu calcular o nível exato. Algo terrível está vindo para cá.
Giovanna pensou na escala humana de ameaças, uma régua engessada havia séculos.
— O que isso significa em números? — perguntou Giovanna.
— Se eu tivesse que resumir, diria que o menor valor que conseguimos confirmar supera a soma de toda a energia medida nos últimos dez anos.
A sala silenciou. Dava para ouvir o ar-condicionado.
— Mas por que aqui? Por que hoje? — perguntou Beatriz. — Outros países reportaram algo parecido? E nós reportamos oficialmente?
— Ninguém reportou nada. Nós também não, até entendermos melhor a situação. — Álvaro coçou a nuca. — Ainda assim, uma concentração dessas dificilmente passa despercebida. É estranho ninguém ter entrado em contato.
— Algo não está certo — disse Giovanna. — Bia tem razão: por que hoje, e por que aqui? Não parece aleatório.
— Seja o que for, aleatório ou não, pouco importa agora. — Álvaro fechou a pasta; o gesto trazia um ponto final. — O problema está no nosso colo e temos que resolver.
O mundo, na verdade, já tinha visto criaturas assim antes.
Muito antes de existir uma máquina para medi-las. Muito antes de escalas, classificações ou relatórios.
Do outro lado da cidade, muito longe dali, algo atravessava o portal — e, mesmo assim, Giovanna sentiu.
Todos sentiram.
Não veio como som, nem como tremor. Veio como uma mudança na composição do mundo, um ingrediente novo dissolvido no ar de todos os lugares ao mesmo tempo. No instante em que as presenças avassaladoras cruzaram o portal, uma sensação horripilante se espalhou pelo Rio inteiro, e os Latentes e as Anjos a sentiram até nos ossos — um arrepio que subiu pela nuca e ficou ali, frio, parado, sem ir embora, como um dedo encostado na vértebra.
Teste