CAPÍTULO 2
Fantasias
O sangue de Rafael escorreu ao redor do braço que Eryn mantinha cravado no peito dele e desceu até o cotovelo dela. Os olhos de Eryn brilharam.
O instante de que mais gostava. O corpo sempre entendia antes da pessoa. O dele já havia disparado todos os alarmes; tremia nas bordas, tentando fugir de uma ameaça que a mente ainda não conseguia nomear.
— Q-Quê…
Rafael não gritou. Continuou olhando para Eryn com a expressão atrasada de quem ainda procurava a paquera no meio da festa, enquanto a vida escapava de dentro dele.
— Cadê? Será que está aqui?
Eryn moveu a mão dentro do peito dele, concentrada.
— Por que… tá queimando? Ué… não consigo… me mexer?
Ele tentou com mais força. As pernas não responderam.
— Shhh… shh… não se mova, vai estragar tudo. Acho que já vou encontrar.
Os dedos dela avançaram mais um pouco.
— É por aqui, está batendo mais forte…
O olhar de Rafael vagou para cima e voltou, trêmulo.
— Ah… a garota bonita… O que… tá acontecendo?
— Achei!
Eryn fechou os dedos.
A pressão subiu de uma vez. Vasos se romperam, e o branco dos olhos de Rafael foi tomado pelo vermelho, de baixo para cima, até transbordar.
Quando Eryn retirou o braço, trouxe o coração dele na mão. Só então Rafael encontrou o grito que o corpo vinha segurando.
E ali estava: o desespero. Esse, sim, era o sabor favorito dela.
Um som agudo escapou de Caio, o amigo de Rafael — fino demais para o corpo grande de onde saíra. Ele se virou e correu, tropeçando nas próprias pernas.
— Que coisa feia. Não pode abandonar uma mulher assim.
Lyseth assistia a tudo ao lado de Eryn. A voz saiu macia, quase sedutora.
— Assim ela vai pensar que você a achou feia. Que grosseria.
Ela estalou os dedos. Os pés dele pararam a dez centímetros do asfalto, ainda pedalando. O corpo subiu devagar e girou até voltar para perto das duas.
Então Lyseth começou a torcê-lo.
A cintura girou para um lado; os ombros, para o outro. Ambos ultrapassaram o limite que um corpo humano deveria suportar e continuaram. Os ossos saltavam sob a pele, um a um, enquanto a camisa floral se enrolava junto à carne como um pano molhado.
Lyseth passou a língua pelos lábios de batom vermelho.
— Isso, continue. Os gritos, o som das suas entranhas sendo espremidas e dos seus ossos quebrando se mistura com esse horrendo barulho da cidade.
Fechou os olhos por um instante, como uma regente conferindo a afinação.
— O terror, a surpresa, o inusitado… É isso que compõe uma peça maravilhosa. Sim, é a abertura perfeita.
Cada uma tinha seu jeito de brincar, o de Lyseth era metódico. Eryn preferia quantidade.
— Eles acharam mesmo que a gente estava fantasiada — Eryn disse, achando graça, sacudindo o sangue da mão em gotas para o ar. — Sarinta. Sarinta, escuta essa! Eles acharam que era fantasia.
— Eu já ouvi.
Sarinta não havia parado de andar.
A demônio ruiva abria caminho pela multidão como brasa sobre papel: sem pressa, sem desviar, acendendo tudo por onde passava. Labaredas erguidas contra o céu. Ela não perseguia ninguém. O fogo fazia isso por ela.
Um bêbado, ainda preso à festa que já não existia, agarrou-lhe o braço e tentou puxá-la para dançar. Em segundos, a mão dele se desfez — pele, carne e osso escorrendo como cera. Sarinta seguiu adiante sem olhar para trás, sem lhe conceder mais atenção do que daria a um poste.
A multidão permanecia presa na dimensão entre o espetáculo e o massacre.
Eryn se maravilhou com aquela cidade: por alguns segundos, os gritos ainda passavam por alegria.
Naquela noite, o Rio já era barulho antes delas. Música, risadas e corpos comprimidos ocupavam cada fresta; o grito de quem morria alcançava os ouvidos vestido do mesmo excesso que o grito de quem comemorava.
Uma mulher viu Eryn erguer pela gola um homem com o dobro do seu tamanho e pensou que se tratava de uma apresentação de teatro de rua, talvez a gravação de um filme. Sacou o celular.
Estacas de pedra viva romperam o asfalto e empalaram o homem no ar. O sangue atingiu a tela, quente demais para ser efeito especial.
A mulher baixou o aparelho para conferir a cena a olho nu.
Levantou-o de novo e aproximou a imagem.
Quando tornou a baixar o celular, um sorriso de caninos afiados a esperava a meio palmo do rosto.
5 minutos atrás
Na sala de reuniões, ninguém ainda havia se livrado do arrepio.
Eterna encontrou o olhar de Giovanna do outro lado da mesa.
— Sentiu isso também?
— Sim. — Giovanna assentiu.
Álvaro não deu ao silêncio tempo para se acomodar.
— Pessoal, preparem-se! É hora do show!
Não havia medo aparente em sua voz. A frase descontraída não lhe caía bem, mas fora escolhida para impedir que o pânico se espalhasse. Cabia a Álvaro parecer confiante diante dos outros.
— Esquadrão Anjo, as Ameaças Desconhecidas são seus alvos. Detectamos quatro assinaturas, mas não presumam que sejam as únicas. Pode haver outras ocultas.
— Entendido — responderam as Anjos.
As quatro vozes saíram juntas. Da bagunça de minutos antes não restava vestígio.
— Esquadrão Latente, comigo. Vamos ajudar na evacuação e lidar com os demônios menores que aparecerem. Só entrem em combate se for necessário.
O olhar dele percorreu os Latentes.
— Ouçam com atenção: nossa prioridade é salvar vidas, não matar demônios. Fiquem longe das Ameaças Desconhecidas. Mortos, vocês não podem salvar ninguém. Nem sonhem em se aproximar até termos mais informações.
Álvaro hesitou. Aquela parte lhe custava.
— Antes que digam qualquer coisa: eu sei que estão frustrados, mas se jogar dentro de um vulcão em erupção não é coragem; é burrice. Dói admitir, mas, neste momento, só vamos atrapalhar.
Voltou-se para as quatro.
— Garotas, sinto muito por colocar vocês em campo assim sem informações. Mas não temos escolha.
Beatriz deu de ombros. Esse era o tipo de peso que preferia tirar dos ombros alheios.
— Relaxa, Chefia. É nosso trabalho.
— Mesmo assim, eu sinto muito.
Ele ainda precisava repassar a ordem do escalão superior.
— Mais uma coisa. Recebi uma ordem de cima: querem que vocês contenham os danos à cidade, já que estamos em pleno Carnaval. Além disso, exigiram que capturem pelo menos uma das entidades viva, para estudo e atualização do banco de dados.
Um silêncio educado recebeu a frase — o tipo reservado às ideias absurdas de quem não podia nem precisava sentir aquilo na pele.
— Julgando pelo que acabei de sentir, vai ser muito difícil, mas... — Giovanna deixou a frase pendurada no ar.
O rosto de Álvaro endureceu.
— Mas eu digo uma coisa: eles que se fodam. Lutem com tudo e não hesitem em matar na primeira chance.
Era essa a parte dele que respeitavam: o chefe que assinava relatórios com uma mão e rasgava ordens idiotas com a outra.
— Esses burocratas de merda ainda tiveram a pachorra de dizer que isso era uma grande oportunidade e poderia render muito dinheiro. Ficam sentados no ar-condicionado dando palpite… A gente vai botar um bicho desses onde? Num aquário, porra? — A voz subiu um tom. — Eles que reclamem o quanto quiserem depois!
A equipe riu. Por alguns segundos, a tensão cedeu. Álvaro não era um chefe extremamente sério, mas raramente fazia piadas; Quando fazia, era a naturalidade com que as soltava que as tornava engraçadas.
— Entendido, Chefe — disse Giovanna.
As quatro saíram juntas e seguiram pelo corredor escuro. Seus passos eram o único som — quatro compassos diferentes no mesmo andamento. Atrás delas, a luz da sala recortou Álvaro na soleira.
Queria poupar os Latentes da culpa de ficarem para trás, mas mandar as Anjos adiante também lhe pesava. Não por falta de confiança. Diante do desconhecido, falava mais alto o instinto protetor que aquela pequena equipe despertara nele. Se pudesse resolver a situação tomando o lugar elas, mesmo que isso lhe custasse a vida, Álvaro não hesitaria.
Mabel percebeu que ele continuava à porta e olhou para trás.
— O que foi?
— Não levem isso na brincadeira. Dessa vez é diferente... — Uma pausa honesta. — Tomem cuidado.
Beatriz nem precisou olhar para saber o que Eterna diria.
— Não se preocupe, chefia. Nós vamos vencer.
Eterna estendeu o braço e ergueu o polegar sem se virar.
— Antes de sair, manda trocar esse bendito pó de café. Seria bom ter café de verdade quando voltarmos para preencher o relatório — completou Giovanna.
As quatro continuaram pelo corredor, e a luz morreu às costas delas até que as sombras as engolissem.
Lá atrás, abafada pela distância, a voz de Álvaro chegou acompanhada de um suspiro:
— Elas sequer ouviram uma palavra do que eu disse?
Tinham ouvido. Cada palavra, inclusive as que ele não dissera.
Subiram a escadaria em silêncio. A cada degrau, sentiam o coração acelerar — não de medo, mas de antecipação. Aquela certamente seria a maior batalha que já haviam enfrentado.
A porta de metal se abriu para o céu quente da noite.
Do outro lado da cidade, a dúvida finalmente cedeu ao pânico.
Eryn percebeu o instante exato em que a multidão inteira entendeu. Não pessoa por pessoa: o movimento atravessou todos de uma vez, como um cardume que muda de direção. Mil indivíduos tornaram-se um bicho de incontáveis pernas, disposto a pisotear partes de si mesmo para continuar existindo.
As ruas laterais entupiram primeiro. Os da frente não conseguiam parar; os de trás os empurravam para entrar. Em menos de um minuto, um beco tornou-se um gargalo de gente prensada ombro a ombro entre as paredes.
Sarinta chegou ao outro lado daquele beco e parou pela primeira vez na noite.
Observou de lado a massa aprisionada no próprio pânico, braços erguidos sobre as cabeças como raízes ao contrário. Um olhar de desprezo atravessou seu rosto quando ela levantou a mão. Eryn entendeu o que viria.
O beco se acendeu.
A passagem estreita virou uma fornalha. Em um instante houve apenas gritos, fogo e fuligem.
Sarinta retomou a marcha sem olhar para trás.
As chamas subiram acima dos prédios e chamuscaram as fachadas. A onda de calor alcançou Eryn na outra extremidade como o bafo de um forno aberto. Para ela, a fogueira era apenas parte da festa.
Mas o interesse não durou muito. Enquanto figuras incendiadas tentavam escapar pelas bordas e espalhavam as labaredas no desespero, ela já procurava o próximo grupo.
Lyseth cuidava da retaguarda.
Escolhia aqueles que corriam pela rua na direção contrária da marcha — os que, por um breve segundo, acreditavam ter se salvado — e os erguia no meio da corrida. Depois os dobrava para dentro, uma vez, outra, reduzindo cada corpo em torno do próprio centro até se tornarem uma bola de carne.
Então os arremessava contra outros grupos, bares e estruturas.
Cada corpo explodia no impacto e arrancava novos gritos do perímetro. Lyseth os recebia de olhos fechados, acrescentando notas à própria sinfonia.
— O som desse impacto é fascinante.
Galene não caçava. De pé no meio da rua, asas abertas e braços cruzados, parecia uma estátua imponente. Uma multidão corria em sua direção. Alguns passos à frente dos demais, um homem vinha com os braços estendidos, talvez pedindo ajuda, talvez cego demais para notar que ali não havia nenhuma.
Antes que ele se aproximasse demais, Galene moveu a cauda.
Um golpe preciso separou a cabeça do corpo, que ainda avançou dois passos antes de cair. Nenhuma gota alcançou a dragoa. A cauda tornou a se enrolar nas pernas dela, tão limpa quanto antes.
Quando o restante do grupo veio pelo mesmo caminho, Galene nem se deu a esse trabalho. Rajadas de vento cortante os destroçaram a uma distância segura, sem permitir que qualquer resíduo a tocasse.
Era assim que matava: apenas quando algo tentava se aproximar. O contato parecia ofendê-la; eliminá-los, por sua vez, era um inconveniente indigno de esforço. Abriu as asas de uma vez — o ar estalou — e subiu ao prédio mais alto da rua.
De cima, ficou como uma nobre diante do abate: presente, imperturbável, como se nem o cheiro pudesse alcançá-la.
O tédio não era pose. Isso intrigava Eryn, no topo de um poste meio derretido enquanto escolhia o próximo alvo.
Galene atravessara para um mundo inteiramente novo e, ainda assim, conseguia considerá-lo desinteressante.
— Já terminaram de brincar, ou viemos aqui para ficar pisando em insetos?
Eryn saltou como uma fera na direção de uma mulher que corria pela calçada e caiu sobre ela, esmagando-lhe a cabeça contra o chão. Sangue e miolos espalharam para todo lado.
— Larga de ser chata, Galene! A gente está se divertindo aqui! — ela disse, olhando para cima.
Sem demora, partiu para cima de um homem que forçava as costas contra uma parede como se tentasse atravessá-la. Enfiou as garras na barriga e puxou para os lados, como quem abre um armário.
— Olha quantos tem, Galene! Dá pra matar a noite toda que não vai acabar! Aqui é o paraíso!
Girou nos calcanhares e ergueu os braços para a noite. Sob o luar, o sangue parecia negro.
— Humpf. Só a plebe poderia ter um gosto tão estapafúrdio por selvageria barata. Não me apetece.
Galene não esperava resposta e não recebeu nenhuma; abaixo dela, a brincadeira prosseguiu.
Em poucos minutos, a rua antes tomada por foliões tornou-se um campo de corpos. A música ainda chegava de longe, abafada e entrecortada; sob ela, restavam o crepitar do fogo e os últimos lamentos de quem já não conseguia fugir.
Quando as quatro alcançaram o terraço, uma coluna de fumaça já manchava o horizonte. Na imensidão do Rio, a carnificina ainda se concentrava em um único bairro. Bastava para reduzir aquele trecho da cidade a um cenário macabro, irreconhecível sob a fumaça.
Mabel estendeu o braço direito. Um brilho ciano-azulado acendeu ao redor do antebraço, oscilou duas vezes e se firmou com um timbre agudo, metálico.
Curvou os dedos num anel diante do olho direito.
Uma pequena esfera da mesma luz surgiu no centro e girou devagar. Mabel olhou através dela como se fosse uma luneta.
— Encontrei.
— Quatro. Conto exatamente quatro. Já sei onde estão.
A esfera se desfez em gotículas luminosas enquanto baixava a mão. Mabel permaneceu em silêncio por um segundo, o rosto mais sério que antes.
— Como está a situação? — perguntou Giovanna.
— Tá feia. A gente tem que ir agora.
Eterna já estava pronta.
Relâmpagos corriam sob a pele dela, o sorriso habitual havia desaparecido. Os olhos de Giovanna atravessavam a noite com um brilho verde. Ao lado, o calor subia pelo corpo de Beatriz, constante e controlado.
— Vamos — disse Giovanna.
Deram juntas um passo para além da beirada e deixaram seus corpos cair.
A cidade se abriu sob seus pés, por um instante, as quatro apenas desceram, cabelos e roupas açoitados para cima pelo vento.
Então soltaram suas auras ao mesmo tempo.
A queda pareceu desacelerar dentro do clarão.
As chamas envolveram Beatriz num casulo carmesim. Dentro dele, uma fênix abriu as asas e tornou a fechá-las sobre seu corpo. O fogo se condensou na camada branca; vermelho e ouro endureceram por cima, moldando a couraça e as labaredas dos antebraços. Sobre os quadris, duas placas longas desceram, cada uma moldada como uma fênix de asas recolhidas, a cabeça projetada à frente e a plumagem aberta em relevo. A gema oval da gola se acendeu, e o casulo se desfez em brasas.
O relâmpago de Eterna explodiu para fora. Arcos dourados se curvaram ao redor dela como uma juba, e um leão de luz avançou junto à queda antes de se desfazer em faíscas. No rastro, surgiu a camada branca; o ouro moldou a couraça e se ramificou por seus membros, enquanto o rosa profundo preencheu os intervalos, cortado por nervuras douradas. Sobre os quadris, duas placas com cabeças de leão tomaram forma, os olhos acesos em azul-safira. O cristal da gola fulgurou, e a eletricidade correu por toda a armadura.
A água de Mabel subiu contra a gravidade num brilho ciano-azulado. Faixas líquidas envolveram seu corpo e se reuniram na forma de uma águia em mergulho. Ao se desfazer, a ave endureceu numa armadura turquesa e azul profundo, contornada de ouro sobre a camada branca. Dos quadris desceram duas peças em camadas de plumagem, cada uma marcada pelo rosto de uma águia. As gotas da gola se acenderam até alcançar a gema central, e o restante da água escorreu para o vazio.
A aura de Giovanna enroscou-se nela.
Uma serpente verde de luz circundou-lhe a cintura, subiu pelo tronco e se desfez em folhas ao alcançar a garganta. Em seu rastro, a armadura violeta brotou sobre a camada branca, adornada por curvas carmesins e escamas escuras. Uma rosa floresceu na gola. Sobre os quadris, duas placas tomaram a forma de cabeças de serpente; os olhos estreitos se acenderam, e as folhas desapareceram no vento.
Quando o clarão cedeu, as quatro já estavam vestidas para a batalha.
As auras explodiram para baixo. Inclinaram o corpo, curvaram a trajetória e converteram a queda em impulso. O mergulho tornou-se voo.
Quatro rastros atravessaram a noite — o carmesim de Beatriz, o dourado de Eterna, o azul de Mabel e o verde profundo da aura de Giovanna —, cortando o céu de fevereiro sobre bairros que ainda festejavam sem saber o que havia começado.
Eterna não esperou que chegassem ao alvo.
Beatriz a viu romper a formação ainda a quilômetros de distância. Eterna desviou para cima, ganhou altura numa curva longa e, no ponto mais alto, alinhou o corpo para o mergulho. Então se transformou num único raio dourado cruzando o céu na diagonal.
Lá vai ela, pensou, com a resignação afetuosa de quem vê a amiga furar o sinal vermelho pela centésima vez.
Galene foi a primeira a se voltar para o norte.
Algo vinha na direção delas — distante, ainda, mas rápido como meteoros rasgando a atmosfera.
Sarinta parou de andar e também olhou.
— Quatro presenças. Estão vindo rápido. — Ela girou o pescoço até estalar, se preparando. — Parecem ser capazes.
— Finalmente. Achei que ia morrer de tédio aqui — disse Galene, lá do alto.
— Mais humanos? — Eryn colocou a mão sobre a testa, olhando para o céu.
— Humanos, sim. Mas não são como estes — respondeu Lyseth. — Que ótimo. Mal posso esperar para dissecá-los.
O céu sobre os telhados rachou.
Não era a fenda. Não era o portal.
Um único raio dourado riscou a noite de ponta a ponta e desceu sobre elas, reto como uma flecha.
Eterna não perdeu tempo escolhendo. A mais visível bastava.
No alto de um prédio, recortada pelo brilho dos incêndios, Galene era o alvo mais exposto.
A dragoa viu Eterna se aproximar e não descruzou os braços. Sustentou o olhar com o queixo erguido, absolutamente confiante de que aquilo não representava ameaça para ela.
“Ótimo”, pensou Eterna, enquanto o mundo inteiro afunilava naquele telhado.
— Continua paradinha aí.
Um arco de fogo rasgou o espaço entre as duas.
De dentro das chamas, uma silhueta de chifres veio ao encontro de Eterna. Segurava uma espada negra com fogo vazando pelas fissuras.
— O quê?
Não esperava a interferência, mas não se importou. Ainda havia distância. Cinquenta metros, talvez trinta. Não importava quem fosse, quem estivesse no caminho cairia primeiro.
Eterna manteve o ataque.
Seu punho desceu com a força de toda a altura conquistada e a velocidade acumulada por quilômetros, cada relâmpago do corpo comprimido no golpe.
A mulher de chifres apenas ergueu a mão vazia.
E a fechou ao redor do punho.
A onda de choque estourou todas as janelas do quarteirão, como um fôlego enfim liberado. Uma nevasca de vidro desabou sobre as ruas.
Por meio segundo, as duas permaneceram suspensas — o punho dourado preso na palma em chamas.
No instante seguinte, Eterna voava na direção oposta.
E desapareceu para dentro do segundo andar de um prédio, levantando concreto e poeira.
O protesto de Galene alcançou Sarinta antes que ela tocasse o asfalto:
— Sarinta! Como você ousa se intrometer?!
Galene abrira as asas no telhado, a voz rachada de indignação.
Sarinta a ignorou. Limitou-se a sacudir a mão até que os últimos arcos dourados se desfizessem entre seus dedos como se limpasse poeira, vestígios de um golpe capaz de demolir um prédio.
Giovanna, Beatriz e Mabel pousaram logo depois.
Beatriz se ergueu da aterrissagem e percorreu a avenida com um único olhar.
Corpos ocupavam o lugar dos foliões. O lugar cheirava a carne queimada e ferro.
— Vocês humanos não têm boas maneiras? Atacam antes das apresentações. — a voz de Sarinta cortou o ar, trazendo a atenção para si.
Ela levou uma das mãos ao peito, as garras abertas sobre a armadura escura fissurada por veios de fogo.
— Eu sou Sarinta. A Soberana do Fogo Infernal.
Apresentou-se como um general diante de tropas inimigas. Beatriz avaliou a base firme e o peso bem distribuído. Sarinta não mostrava abertura. Aquela ali era perigosa de verdade. Pior: havia rebatido Eterna com uma só mão.
Lyseth deslizou para o lado sem tocar o chão. Os braços cinzentos flutuavam atrás dela, e o cabelo liso, negro como tinta derramada, emoldurava um sorriso malévolo.
— Lyseth — disse, com a voz baixa e suave. — A Bruxa Abissal.
Eryn acenou com os dedos ensanguentados, alegre apesar da carnificina ao redor.
— Eu sou Eryn! A Fada da Calamidade.
A última mal virou a cabeça. A cauda moveu-se uma vez sob as asas recolhidas; os braços continuavam cruzados.
— Galene — disse. — A Duquesa do Vento.
Sarinta abriu as mãos para a avenida devastada, como se apresentasse a própria obra.
— Agora digam quem são e que reino é este. Tragam-me os guerreiros mais fortes daqui.
O calor respondeu antes da prudência. Beatriz deu um passo à frente.
— Que coincidência... — Os olhos dela já estavam acesos, duas brasas ganhando ar. — Soberana do Fogo, é? — O sorriso veio sozinho, afiado, dos tempos em que ela ainda lutava para provar sua força. — Eu sou Beatriz Galdino. A Imperatriz das Chamas.
Faíscas correram em torno de seu corpo.
— Vamos descobrir qual de nós duas é a mais—
Uma mão pousou no ombro dela.
Beatriz parou.
Eterna havia voltado. Poeira de concreto se prendia ao cabelo, havia sangue no canto da boca, mas a armadura rosa e dourada permanecia intacta. Ela não olhou para Beatriz; assim que saiu do prédio, fixou o olhar nas inimigas e não tornou a desviá-lo.
— Nomes e apresentações não importam. Logo vocês todas vão estar mortas.
Só então baixou a voz para dirigir-se à colega.
— Essa é minha, Bia.
— Tá...
Beatriz não argumentou. O duelo já havia sido definido. Eterna soltou o ombro da amiga, firmou o pé no chão e deixou o relâmpago subir dos calcanhares à cabeça.
O asfalto detonou sob seus pés.
Ela sumiu num lampejo, e o sorriso de Sarinta se abriu enquanto levantava a espada — lâmina escura, fogo vazando pelas rachaduras — a tempo de aparar o golpe. Nem assim Sarinta conteve toda a força: as duas dispararam juntas para o alto, presas ao mesmo raio de ouro e vermelho.
Um estrondo clareou o céu atrás do prédio em que Galene estava; outro respondeu mais longe. Logo, dois pontos de luz rasgavam a noite, subindo, caindo e colidindo no horizonte.
Ninguém falou. Não havia mais nada a dizer.
O olhar de Giovanna encontrou Lyseth; a aura púrpura da demônia acendeu-se ao redor dos braços espectrais. Mabel fixou Eryn. Os pares se formaram ao mesmo tempo e arrancaram em direções opostas.
Roxo e verde desapareceram por um lado, ciano e rosa por outro, até restarem ali apenas Beatriz e a dragoa.
Beatriz soltou o ar devagar e olhou para as explosões que se afastavam pelo horizonte.
— Bom. Lá vão elas. Poxa vida, eu queria a do fogo.
Então voltou a atenção para Galene.
— Vou ter que me contentar com a Dona Vampira aqui. Deve dar pro gasto.
A cauda da dragoa parou de balançar.
— Que foi, sabe que você parece uma vampira, né? — Beatriz inclinou a cabeça, examinando de novo, confirmando o diagnóstico. — Lagartixa Vampira.
Algo em Galene endureceu — os ombros, o olhar, a linha inteira do corpo. Beatriz soube na hora que havia acertado um ponto sensível.
— Vampira? Não me compare com esses parasitas imundos. Meros falsários. Um bando de sevandijas.
Abriu completamente suas asas cor-de-gelo.
— Eu sou do clã dragão. A única e verdadeira realeza do Reino das Trevas.
O olhar laranja de Galene desceu por Beatriz.
— Sinta-se honrada de estar em minha presença, humana.
Só então Galene deixou o telhado. Desceu sem pressa e tocou o asfalto a poucos metros da oponente, ainda de braços cruzados.
Beatriz deixou a exibição terminar. Educadamente. Depois apontou o polegar por cima do ombro, para a ruína atrás de si.
— Te falar uma coisa, vocês fizeram uma zorra e tanto, hein? Nem o melhor advogado do mundo ia livrar vocês dessa.
Galene ergueu uma sobrancelha.
— Hmm?
— Tudo isso aqui. — Mexeu a mão por cima do ombro. — Vocês fizeram uma puta bagunça.
A dragoa continuou séria.
— Ah, vocês não têm tribunais e julgamentos lá de onde vêm, claro.
— Claro que temos tribunais. Só não temos tantos palhaços.
Beatriz soltou uma risada, pega de surpresa.
— Engraçado. Então você tem senso de humor.
As chamas que Beatriz mantivera contidas se adensaram ao redor de seu corpo e levantaram seus cachos.
— Você perguntou meu nome antes. Vou dizer devagar. Beatriz Galdino, a Imperatriz das Chamas…
Um contorno de aura vermelha apareceu ao redor da silhueta de Beatriz.
Em resposta, o vento soprou pela avenida, correntes subiram em redemoinho ao redor de Galene.
— Eu não perguntei seu nome. Pouco me importa, só espero que você não morra rápido demais.
— O que eu estou dizendo… — Beatriz fechou os olhos enquanto as chamas subiam. — …é que hoje eu serei sua juíza, seu júri…
Quando tornou a abri-los, seus olhos brilhavam em escarlate.
— …e sua carrasca.
Seja a primeira pessoa a comentar este capítulo.